A chance de uma nova vida

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O último dia 27 foi a data destinada ao Dia Nacional do Doador de Órgão e de Tecidos, tendo também o Setembro Verde, mês intitulado para conscientizar sobre a importância da doção de órgãos. Mesmo que a data já tenha passado, A Notícia traz a reportagem, mostrando a história de três pessoas transplantadas, que narram o real significa de terem sido beneficiados com a generosidade que salva vidas, a doação de órgãos

A história da Vanessa Wutke Krause Felberg, 37 anos, foi marcada por um transplante há cinco meses. Sendo a primeira paciente a receber um coração no Hospital Rio Doce, de Linhares, a moradora de Vila Pavão precisou fazer o procedimento, após o órgão parar de funcionar, durante uma cirurgia. A gerente de supermercado passou nove dias ligada a uma máquina, aguardando a possível doação do órgão. Vanessa superou as estatísticas além do que o equipamento que a mantinha viva suportava. Casada e mãe de uma filha, a pavoense conta que está viva apenas, por dois motivos: o poder de Deus e a generosidade da família que autorizou a doação do órgão a ela.

O Wolmar Gadioli Filho, 62, recebeu um rim há três anos. Passando por muitos obstáculos durante os sete anos de hemodiálise, o aposentado, que mora no bairro Aeroporto, teve que enfrentar além da estrada três vezes por semana, todas os efeitos colaterais do tratamento. Morador de Nova Venécia, o aposentado começou as sessões de hemodiálises em Colatina, depois em São Mateus. Gadioli era militar e teve que se aposentar devido aos problemas de saúde. Casado com a Ivanete Linhaus Gadioli, 44, pai de três filhos e com quatro netos, até chegar a sua vez de ser transplantado, enfrentou uma batalha diária.

A dona de casa Rosimery Pinheiro, 44, também tem muito a contar quando o assunto é transplante. Depois de passar 10 anos fazendo hemodiálise, a balconista Rosivany Pinheiro Lima, 40, decidiu doar um ruim para a irmã. O ato de amor e coragem, partiu depois de ver o sofrimento e a luta diária. O pai já havia tentado ser doador, mas não pode devido a medicamentos que fazia uso. A mãe também não foi autorizada, por ser cardíaca. Trazendo o que ela chama de cicatriz de amor no corpo, a Rosivany conseguiu dar nova vida para quem ela tanto ama. A Rosimery hoje em dia é transplantada, casada e tem um casal de filhos.


Sete anos de hemodiálise e um rim novo

“Tudo começou há 17 anos. Fui diagnosticado com pedra nos rins, que foram retiradas. Dois anos depois, os problemas iniciaram. O nefrologista revelou que eu tinha uma doença hereditária: rins policísticos. Minha mãe fez hemodiálise por mais de 20 anos, e tinha esta doença. A irmã dela também. Comecei as sessões, é muito ruim, você fica ali sentado sem poder se mexer durante quatro horas, ligado a uma máquina. Tem que pegar a estrada três vezes por semana para fazer o tratamento, vai em conduções precárias, sem ar, sem conforto. A gente volta passando mal, é desconfortável. Foram sete anos nessa luta, até que um dia meu telefone tocou, eu mesmo atendi. Um funcionário do hospital afirmou que tinha chegado a minha vez. Minha esposa e eu fomos no mesmo dia para Vitória, não esperei ambulância vir me buscar, minha euforia era tanta, que fui dirigindo. Chegamos ao Hospital Evangélico e minha cirurgia começou as 20 horas, cinco horas depois, tinha terminado. Tive um pós operatório satisfatório. Graças a Deus não tive rejeição. Hoje minha vida é outra. Se as pessoas ficassem uma semana ao lado de quem precisa de um órgão, com certeza mudaria de ideia. Tenho meus dois rins paralisados e foi implantado um outro em mim. Queria muito conhecer essa família que autorizou a doação, ela me salvou, eu me sinto parte dela também. Não sei quem são, sei que o ruim foi de uma mulher com mais de 50 anos. Minha esposa sempre esteve ao meu lado e enfrentamos tudo juntos. Hoje eu posso dizer que nasci de novo e estou vivo, pela generosidade desta família que ainda sonho em conhecer”
Wolmar Gadioli Filho, 62 anos

» Wolmar Gadioli Filho e a esposa, Ivanete

Nove dias em coma a espera de um coração

“Quando eu tinha 12 anos, comecei a ter dores nas articulações, tive febre reumática. Eu deveria ter passado por um tratamento, mas naquela época, o médico indicou remédios para as dores somente. Depois dos 16 anos, comecei a sentir falta de ar de vez em quando, enjoos, vômitos. Um pouco mais velha, chegaram as convulsões. Tive diagnóstico de problemas no estomago. Casei, tive minha filha, mas aquela falta de ar ao realizar tarefas mais pesadas, sempre estavam comigo, só que não era nada que me atrapalhava. Fui levando a vida. Até que no início deste ano, depois de voltar das férias, passei mal no trabalho, senti muita dor no peito e falta de ar. Fui socorrida, passei por consultas e finalmente chegou o diagnóstico de que eu tinha que operar. A válvula do meu coração não estava bombeando como deveria. Segui para a cirurgia. Quando os médicos terminaram a operação, meu coração não voltou a bater, parou. De forma muito profissional, a equipe médica fez com que eu não morresse e fiquei ligada em uma máquina aguardando um coração, só o transplante me salvaria. Sei que me colocaram em uma fila de espera de doadores de órgãos, dependia disso para sobreviver. O maior tempo que um acidente aguentou naquela máquina ali, foram sete dias. Já tinham passado este período, e nada de um doador. Um rapaz que estava no mesmo hospital que eu, havia sofrido traumatismo craniano, não suportou e faleceu. A família dele autorizou a doação de órgão e fui contemplada aos nove dias de espera. Eu nasci novamente, sou fruto de um milagre. Só me lembro de ter acordado 17 dias depois da cirurgia, foi quando fiquei sabendo de tudo que aconteceu. Apesar das dificuldade que tem um transplantado, agradeço todos os dias a Deus pela minha vida. Essa cicatriz que tenho no peito, representa os primeiros passos que dei após reaprender a andar. Fiquei meses sem poder comer, sofri demais com os tubos no pós cirúrgico, mas nada é mais marcante do que saber que existe uma família que mesmo na dor, pensou na vida de outra pessoa. Eu ainda não os conheço, mas tenho profunda vontade, porém, preciso esperar o momento deles também. Deus é o principal motivo por eu estar aqui hoje, depois vem essa família, agradeço ao Senhor todos os dias”
Vanessa Wutke Krause Felberg, 37 anos


Um rim e duas irmãs

“Eu comecei a ter anemia, mas já era por conta do problema renal. Sem diagnóstico correto, fui tomando remédios para isso. Tudo começou há 23 anos. Somente cinco anos
após, foi descoberto que eu tinha problema renal, depois meus dois ruins pararam, comecei a fazer hemodiálise. A luta foi grande, no início eram feitas em casa, adiante, começaram as idas e vindas para Colatina e depois, São Mateus. O tratamento é sofrido. Passei por cirurgias, tirei um dos rins, tive infecção e muitas complicações. Estar viva é um milagre. Nunca pedi a ninguém que fosse meu doador, isso tem que partir da pessoa. Minha irmã foi tocada por Deus, ela quis ser a doadora. Há cinco anos foi feito o transplante, minha vida mudou totalmente, eu nem sabia mais o que era urinar, e logo após a operação, o rim da minha irmã que foi colocado em mim, começou a funcionar. Me lembro de ter feito xixi, que alegria. Sou muito grata a Deus e a Rosivany. Hoje posso realizar tarefas que antes não podia, a máquina da hemodiálise me mantinha presa a ela, a sede era uma coisa inacreditável, e não podia beber água, o sofrimento é uma dor incalculável. Deus me deu uma nova vida através da minha irmã, só tenho a agradecer, foi o ruim esquerdo dela que me salvou”
Rosimery Pinheiro, 44 anos

» Rosivany doou o órgão para a irmã, Rosimey

Para ser um doador

Para ser doador de órgãos é fundamental comunicar à sua família, é ela a responsável pela decisão após o óbito.

De acordo com a legislação brasileira (lei nº 10.211, de 23 de março de 2001), a retirada dos órgãos e tecidos para doação só pode ser feita após autorização dos membros da família.

Para a doação, o doador deve ter sofrido de morte encefálica, pois somente assim os seus principais órgãos vitais permanecerão aptos para serem transplantados para outra pessoa.

Pessoas vivas também podem ser doadoras de órgãos, mas apenas aqueles que são considerados “duplos”, ou seja, que não prejudicarão as aptidões vitais do doador após o transplante.

Um dos rins ou pulmões, parte do fígado, do pâncreas e da medula óssea são exemplos de órgãos que podem ser doados por pessoas ainda em vida.

Atualmente os seguintes órgãos e tecidos podem ser transplantados: pulmão, pâncreas, vasos sanguíneos, intestino, ossículos do ouvido, pele, coração, válvulas cardíacas, córneas, medula óssea, fígado, rins, tendões e meninge.

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