Amor dividido em cinco

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Quando o assunto é maternidade, pode ser dispensada a hereditariedade. Hoje o assunto é só para quem enxerga no amor, o maior sentimento e a melhor arma para combater paradigmas

Laura e Robson adotaram Daniel, um menino especial que não anda, não fala e nem enxerga

“Nunca escolhi idade, cor e nem sexo. Meus filhos chegaram para mim, porque era para ser, eu já sabia deles, mesmo antes de conhecê-los”. Estas foram as palavras da psicanalista Laura Cavalcanti, 55. Casada, e aos 22 anos, ela conheceu o primeiro filho quando ele tinha 13 anos, a diferença de idade entre eles, são 11 anos apenas. Nada que atrapalhasse a relação de mãe e filho.

Depois foi a vez de mais uma adoção. Uma história para lá de especial. Com 12 dias de nascido, a Laura viu o Daniel e de acordo com ela, sentiu que aquele bebê era dela. “Ele chegou até a assistência social do município para adoção, eu sabia que ele era especial, mas ele veio ao mundo para mim. Todos o acharam feio, a cabecinha dele era menor que o normal”, diz.

Um ano depois, a psicanalista avisou ao marido que seriam pais novamente, adotaram duas irmãs, uma de um ano e outra de 7. Nos meses seguinte, a Laura teve conhecimento de uma criança de três meses, que estava com graves problemas de saúde, em coma e na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Não pensou duas vezes, foi a quinta adoção. “Eu nem lembro que os adotei, para mim eles nasceram de mim, são meus. O amor é incondicional, somos uma família grande, com problemas igual a qualquer outra, mas com muita harmonia, carinho e amor em nosso lar, isso não falta”, explica.

Laura conta que ela e o marido, pensavam em ter um filho biológico e mais seis do “coração”. Após descobrirem que o esposo precisava fazer tratamento para ela engravidar, resolveram ser pais de crianças em que a genética não estaria na casa, mas sim, o amor. “Sou uma mãe realizada, nunca cortei os laços dos meus filhos com suas famílias biológicas, eles sabem de tudo que aconteceu e da forma que nos conhecemos. O amor é isso, a convivência, o querer bem”, diz.

O Daniel que não anda, não fala, não enxerga, tem apenas 30% de massa cefálica. Tem sua cama no quarto dos pais e atenção 24 horas por dia. Daniel também só se alimenta de comida pastosa e depende de cuidados o tempo inteiro, já que passa os dias deitado ou no colo. “Ele é muito alegre, é muito gostoso estar com meu filho, é meu bebê, amor para toda a vida”, relata.

Então para a avó de três netos e mãe do Juarez, 44, da Darliane, 30, do Daniel e da Eliane 25, e da Fabrícia 24, aqui vão nossos parabéns, Laura!


Amor sem laço sanguíneo

A Rosane Teixeira Lage da Silva, 50 anos, já estava com a vida tranquila. Com três filhos já crescidos, frutos do primeiro casamento, a agente comunitário viu a rotina virar de cabeça para baixo com a chegada da Raissa, que hoje está com nove anos. A filha caçula foi adotada quando tinha três anos, depois que a Roseane casou novamente, e o marido insistiu em ter um filho. “Eu já havia feito a ligadura de trompas. Antes da Raissa chegar, nós havíamos tentado outra adoção. Não deu certo, porque a avó da criança resolveu ficar com ela. Eu já estava apegada a menina, que passava os fins de semanas em nossa casa. Sofri demais, na verdade eu tive medo e receio de sofrer de novo, não foi fácil”.

Roseane conta que, de início, tentou tirar da cabeça do marido uma nova tentativa de adoção, por carregar marcas do que já tinha acontecido. “Não teve jeito, ele quis e eu comecei a abrir meu coração. A primeira vez que vi a Raissa, ela estava dormindo, não amei a minha filha no primeiro dia que a vi, foi um processo de muitos ajustes e conquistas”, desabafa.

Durante a entrevista a agente comunitário chorou bastante, ao lembrar de tudo que a nova família teve que passar, para se conquistar. Roseane conta que Raissa foi adotada três dias após a primeira vez que se viram. “Ela chegou em nossa casa já me chamando de mãe e meu marido de pai. Estava magrinha. Raissa passou muitas dificuldades antes, ficou muito tempo internada e foi retirada da mãe pelo Conselho Tutelar, depois de longos tempos de maus tratos, a mãe bebia muito, ela passou fome”, conta.

Com rotina estabelecida, o casal e a nova filha, pode ir se conhecendo melhor e estreitando os laços. O tempo realmente foi favorável à família e mostrou que, ali, ninguém mais iria conseguir viver sem o outro. “Uns seis meses depois, parei e pensei do que seria a minha vida sem a Raissa. Não tem como, ela faz parte de mim, é um amor incondicional. Cuido dela da mesma maneira que cuidei dos meus três filhos. A diferença é que sempre tive meninos, para mim é tudo novo agora, ter uma menina é diferente”, fala a mãe.

De acordo com Roseane, a caçula da família Silva faz questão de “copiar” a mãe em tudo, principalmente nas roupas e maquiagens. “É vaidosa demais, tento mostrar que ela ainda é criança, mas ela é igual a um “chiclete” atrás de mim (risos). Adoção não é para qualquer um. A minha filha é amorosa e trouxe alegria para o nosso lar. Quando penso no futuro dela, desejo que Deus seja o centro de sua vida, isso é o mais importante para mim. Ser mãe da Raissa e dos meus três rapazes é uma realização, é amor sem limites”, esclarece.

Roseane é mãe de Raissa, que tenta copiá-la em tudo, inclusive na maquiagem

Uma adoção e uma gravidez

A Danielli Gonçalves da Silva, 20, chegou na vida da babá, Maria da Penha Pereira Gonçalves, 45, no primeiro dia de nascida, que foi quando Penha, soube do nascimento da menina. No momento em que foi avisada sobre a possível adoção, Penha afirma que a Danielli já era dela. Após três dias de vir ao mundo, a criança já estava nos braços e na casa da Penha e do marido. “Quando o juiz falou que estava tudo certo, e que ela era minha filha, meu coração disparou, foi uma emoção enorme, eu amei esse bebê desde o primeiro dia que vi. Pensei: agora sou mãe1”, conta.

A maternidade mudou tudo na vida da babá, que naquele momento tinha um pequeno ser em casa. Quatro meses depois, veio a notícia: Penha estava grávida da Raquieli, 19. A babá optou pela adoção, já que não conseguia engravidar. “Era para minha primogênita ser minha de fato, coisas de Deus”, desabafa.

Com mais um bebê em casa, a diferença de idade entre as duas irmãs é de 13 meses. “Não há diferença alguma entre o amor que sinto entre elas, são minhas filhas, amor de mãe não há distinção”, fala.

Para Penha, ser mãe é proteger o filho, é amar incondicionalmente. Se há uma das duas filhas mais parecida com ela? Tem sim: “A Danielli é igual a mim, tem a mesma personalidade, o jeito. A Raquieli é parecida com o pai”, explica.

No sentido de contar para a filha mais velha que ela também tinha outra família, a babá conta que desde os cinco anos de idade da menina, ela contou. “A Danielli não conhece a mãe dela biológica, mas sempre deixei claro, que se ela quiser, vamos atrás. Ela nunca se interessou”, resume.

E assim será o Dia das Mães na família da Penha, com as duas filhas, que sempre foram o maior amor dela, e que agora, dividem o coração da supermãe, com mais uma integrante, uma neta.

Maria da Penha com as duas filhas, Danielli (D) e da Raquieli (C), e a neta
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