Eles têm muita história para contar

0
1249

A pauta chegou às minhas mãos através de um amigo de infância, que sugeriu que fosse feito uma matéria com os taxistas mais antigos da cidade. Conhecedora das coisas de gente, pensei: tá ai, por que não mostrar quem serve a população todos os dias, e dificilmente é lembrado por alguém? Aceitei a sugestão e no dia que comecei a fazer a matéria, comecei imaginar qual a linha a seguir. Antes de terminar e desenrolar meus pensamentos, os próprios taxistas fizeram isso por mim. São pessoas fantásticas, com histórias engraçadas, tristes, e um mundo de coisas a contar. Quando perguntei a um deles de onde vinha tanto conhecimento, a resposta veio de imediato: “Não estudei, mas conheço muita coisa que aprendi com minha vivência na rua”.
Para se ter uma ideia, o taxista mais antigo de Nova Venécia em atividade continua rodando. É o Cléris Silva, de 81 anos, que desde 1972, está com seu táxi pela cidade, que viu nascer. Depois de 45 anos de profissão, ele esbanja energia: acorda às 5h e só volta para casa no fim da tarde. Domingo enquanto muitos estão descansando, lá está o taxista, nas imediações da Rodoviária Municipal, onde é seu ponto.
Com 40 anos de praça, Arnóbio Peruchi chegou aos 65 anos, e ainda não pensa em se aposentar. Criou quatro filhos, é divorciado, e sustentou sempre a família, com o dinheiro que tira de sua profissão. Foi em 1977 que ele deixou o caminhão que dirigia para o irmão, e decidiu seguir a nova profissão, com um Chevette ano 1974.
Casado com a dona Terezinha, o seu Martin Vitório Gambini, 69 anos, está em Nova Venécia há 45 anos, vindo de Boa Esperança, região do Rio do Norte. Com cinco filhos, nove netos e um bisneto, o taxista está firme na profissão há 33 anos. Decidiu largar a vida de carroceiro, comprou um Fusca 1979 e começou a vida que até hoje não quer largar.
Seu Orildo Pianissoli, 64 anos, começou a lida no volante do táxi, em 1979. São 38 anos dirigindo para gente que muitos vezes, ele nunca viu. Foi do dinheiro do táxi, que o veneciano sustentou a família, e formou os dois filhos, um em educação física e outra em direito. Disso, ele tem muito orgulho, e foi assim, que Pianissoli, na maior simplicidade, bom humor e simpatia, contou um pouco de sua trajetória à nossa reportagem.
Levando em conta que, todo taxista é uma espécie de psicólogo e ouve todos os tipos de assuntos, por que não contar também a vida deles um pouco? Afinal, eles passam a vida sendo ouvintes, conselheiros e até mediadores de conflitos amorosos. Então, aqui vai um pouco das histórias de alguns deles!

» Taxistas levam consigo muitas horas de espera, volante, mas também, o privilégio de trabalhar fora de quatro paredes

________________________________________________________________________

“A cidade aqui era pequena, quase ninguém tinha carro e moto, muito menos os supermercados entregavam as compras. Tivemos nossa época de glória neste tempo. Com um ano e meio como taxista, comprei um carro zero à vista, ou seja, ganhávamos bem. Hoje em dia não dá para dizer isso mais. Já aposentei, e pensei que nesta idade, eu já estaria quieto em casa. Mas não consigo, não aguento ficar parado. Hoje quando o dia está bom, faço oito corridas por dia, antes eu fazia mais de 20. Uma das coisas que o taxista tem que ter, é bom ouvido e sabedoria, para guardar o segredos, ouvimos muitas coisas. Tive um passageiro que entrou no meu carro dizendo que iria se separar, fui conversando, dando conselhos e mostrando como se resolvia as coisas num casamento. Ele não se separou e voltou depois para me agradecer. De vez em quando nos encontramos, e ele continua casado até hoje, fico feliz. Tenho 49 anos de matrimonio, é importante saber viver bem”
Martin Vitório Gambini, 69

________________________________________________________________________

“Convivemos com todo tipo de gente e para mim, todos têm o mesmo valor. No meu táxi já entrou juízes, fazendeiros e muita gente que virou amigo. Fiz viagem ao Rio de Janeiro para buscar passageiro, esta foi a mais longa, que eu lembre. Estou aposentado há seis anos, mas não consigo deixar o trabalho. Acordo às 4h da manhã, meia hora depois, já estou aqui no ponto e trabalho até a hora do almoço no terminal, depois disso, atendo por telefone, em casa. Já trabalhei muito na vida, é hora de descansar um pouco também. Sofri uma tentativa de assalto há uns anos, e não rodo à noite mais, só se algum conhecido me ligar. Nossa profissão se tornou muito perigosa, não temos mais a liberdade que tínhamos antes no volante”
Arnóbio Peruchi, 65 anos

________________________________________________________________________

“Comecei a dirigir caminhão em 1956 e 16 anos depois, comprei um Fusca, foi aí que entrei para o táxi. Já fiz corrida para muitos fazendeiros, que também pediam para transportar os filhos deles e toda a família para outras cidades. Gosto do que faço, se não gostasse, seria difícil viver dia a dia no ofício. Trabalho à noite também, não tenho medo, tenho cuidado; o medo não adianta ter, é preciso trabalhar. Quando noto que já cheguei a esta idade e ainda estou trabalhando, acho interessante. Estou com um Gol 1995, é um 1.6. Meu carro já viveu muitas coisas, já participou de muitas histórias felizes e tristes. Se acho que a sociedade valoriza o taxista? Acho que não. Somos invisíveis e ninguém nem percebe que estamos aqui”
Cléris Silva, de 81 anos

________________________________________________________________________

“Quase tudo que tenho, devo ao táxi. Tenho uma casa boa aqui na cidade, e outra em Guriri, o trabalho no volante me deu. Comecei com um Fusca 1979, foi o primeiro. Comprei com o dinheiro que acertei na loto uma vez, e foi assim também que adquiri o meu ponto. Esse é meu décimo primeiro táxi. Tenho uma terrinha na zona rural também. De repente acham que nossa vida é fácil. Hoje trabalho menos, mas antes, já perdi muitas noites de sono. Bancos me contratavam para levar malote em Vitória, não tinha internet, era assim que os documentos chegavam lá. Eu entregava e voltava no mesmo momento. Cansei de chegar aqui as 3 horas da manhã, sozinho. Já fui a Brasília também, levar um polonês, que morava em São Gonçalo. Na época, em 1983, pagou mais da metade do táxi novo que comprei. As corridas valiam a pena. Ser taxista é saber que você não vai estar dentro de um escritório trancado. Se o dia estiver com sol o chuvoso, é assim que você vai vê-lo, o real em tempo integral, e isso é gratificante. Gosto muito do que faço e não sei como parar”
Orildo Pianissoli, 64 anos

Compartilhar

Deixe uma resposta

*