TRADIÇÃO QUE AGONIZA

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A mão que desenha a lápis o Santuário da Mãe Peregrina é a mesma que entrelaça pontos atrás de pontos, costura, finaliza o tecido e o engoma. O ritual faz parte da arte do bordado autoral de Nova Venécia, tradição secular que está por um fio para acabar. Com agulhas e linhas as bordadeiras contam a história do município, do seu desbravamento até os dias atuais. Quem se dedica a algo tão raro? Cinco mulheres. É o que restou do Projeto Dona Fitinha que carrega a responsabilidade de manufaturar produtos exclusivos na região. Como não há apoio da sociedade e do poder público, viver da mão-de-obra é impossível para elas. A renda de cada uma vem da enxada na roça. Treinamentos, feiras e participação em catálogo nacional estão no currículo delas, que vêm dando os últimos suspiros, mas ainda tentam deixar fincada na vida de uma cidade, as raízes de um povo. Onde continuar narrando cada pedaço desse enredo? No percal e linho produzido pelo quinteto. O Jornal A Notícia traz hoje uma reportagem que aborda o cenário dramático de uma arte, que carrega um fardo pesado. Aqui mostramos, não somente dramas. A reportagem apresenta números e soluções, para que continue sendo narrada a história de uma região rica em personalidade. As bordadeiras precisam sobreviver, esta parte da cultura veneciana não pode morrer

Dar continuidade à identidade cultural local através de uma arte está nas mãos de artesãs de Nova Venécia, no município de pouco mais de 50 mil habitantes, localizado no Noroeste do Espírito Santo. São elas que, mesmo em meio aos últimos suspiros, ainda querem contar a história da região de um jeito original. Com rabiscos a lápis e desenhos autorais, tecidos se tornam peças únicas, e a imaginação vira realidade em bordado. A agulha e a linha que entram e saem de cada furo, trazem à tona a economia local, a religiosidade, a cultura, a história de um povo de imigração italiana, e os primórdios de uma região que teve como desbravador, o Barão de Aymorés, de origem portuguesa. Tudo isso, porém, pode deixar de existir. A falta de incentivo vem refletindo neste trabalho exclusivo na cidade. Cinco mulheres são as últimas moradoras da região, a manufaturar de forma única e tradicional, tais peças. O ofício em questão é totalmente original, não existindo traços de semelhanças com outros bordados.
Os dedos com vários furinhos da dona Marlene das Graças Oakes, 53 anos, contam um pouco da árdua tarefa que é persistir com trabalhos manuais na atualidade. Aqui é apenas o início de um trabalho que leva horas e muitos dias de dedicação. Beleza e peças exclusivas são marcas desse ofício.
É em um galpão da Associação de Produtores Rurais de Santo Izidoro (Aparsi), a 12 Km da sede do município, que o Projeto Dona Fitinha, criado em 2010, ainda resiste. A ideia é resgatar histórias e tradições de antepassados da cidade interiorana. Neste espaço rústico da comunidade — que emprestou o nome para a associação — que as mulheres teimam em enfrentar o desinteresse da sociedade e do poder público. Em meio ao barulho de tratores e de moedores de café, elas vão traçando o dia a dia de cada uma, contados através de pontos. São elas, as últimas sobreviventes entre 20 integrantes, precursoras da retomada de uma tradição.
O compromisso para a manufatura do material do quinteto acontece uma vez por semana. O momento também é de troca de ideias, em meio à diversão e conversas. Nos encontros, a leveza da arte cede lugar ao fardo pesado: tentar perpetuar o trabalho de decorar figuras no tecido, de forma manual.
Além da sofrida realidade de persistir na continuidade de uma tradição, as mulheres que sobraram do Dona Fitinha, carregam consigo, uma jornada tripla. Já que não podem tirar o sustento do bordado, as moradoras da zona rural trabalham desde criança no campo. Os afazeres domésticos completam a grande jornada diária.
Marlene acorda antes das cinco da manhã. Depois do café, a enxada é seu instrumento de trabalho. A lida na plantação cafeeira da pequena propriedade da família é ato obrigatório todos os dias. A lavoura da mandioca, para a fabricação de farinha, também calejam suas mãos. É a lida que judia do corpo da camponesa, mas é o que lhe traz o sustento. “A vida na roça é árdua, não é fácil enfrentar, é o que sempre fiz desde muito pequena. Meu sonho é viver do bordado, me traz alegria e paz”, diz.
Como a criação de figuras ornamentais não consegue proporcionar nem o mínimo de renda para as bordadeiras, Maria Isabel Cescon Simonassi, 62 anos, continua carregando uma típica história de quem da roça sempre viveu. Muito comum entre trabalhadoras rurais, ela desenvolveu graves problemas na coluna. As peneiras cheias de grãos de café, carregadas durante a colheita, trouxeram a enfermidade, que convive até hoje com a artesã.
Visível na hora que senta para bordar, um dos ombros de Luzinete Simonassi, 66, outra integrante da associação, é mais baixo do que o outro, resultado trazido pelas pilhas de estacas carregadas nas costas, durante a vida toda de luta no campo.
As associdas é o que sobrou na região, do método de construir bordado autoral. Porém pensam em abandonar a arte que aprenderam ainda na infância por herança familiar, devido a falta de incentivos.

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Artesanato com raiz cultural

Artesãs constroem cenários da época do Barão de Aymorés, a famosa Pedra do Elefante e narram momentos da vida da neta do Barão

O Dona Fitinha faz parte do Projeto Bordando Histórias, fundado em 2010, pela artesã Maria Alice Capucho Gobbi, “descendente” do fundador da cidade. Antes disso, nada existia no local para preservar este ofício autoral, trazido da Itália pelas levas de imigrantes que chegaram à região no século XIX.
“Quando vi tudo se perdendo, montei o grupo. Entre as integrantes, duas eram adolescentes. O nosso projeto pode gerar renda e profissionalizar muitos jovens. Queremos consolidar a produção artesanal veneciana, ela faz parte de nossa história”, desabafa Gobbi.
Trazendo consigo características exclusivas, a folha de ofício é o início de tudo na produção do trabalho das artesãs. Delas saem os primeiros desenhos feitos à mão. Em seguida, um papel de reprodução é o responsável por passar a figura já rabiscada a lápis para o tecido. Todos os passos são executados pelas bordadeiras, dos traços que contam cenas de suas vidas à história da cidade.
A fundadora deu ao projeto o nome de sua avó adotiva, que era neta do desbravador da região, o Barão de Aymorés. “Minha avó morreu depois do parto e foi a dona Fitinha quem criou a mamãe, com muito carinho e dedicação. Os cuidados eram tantos, que meu avô ao ir embora da propriedade, cedeu ao pedido e deixou a minha mãe com poucos meses de vida com ela”, explica. O casal trabalhava nas terras do barão e a partir daí, a notícia do bebê que acabara de perder a mãe, chegou à casa grande, comovendo a herdeira.
Entre os produtos confeccionados por elas, há uma almofada que exemplifica a ligação das bordadeiras com a história da região. A peça reproduz o bordado de um centro de mesa (uma pequena toalha para enfeitar o móvel) entregue pela dona Fitinha, para a bordadeira Luzinete, no dia do seu casamento. “Eu tinha 20 anos quando ela me presenteou. Guardo com muito carinho, não tenho coragem de usar. Resolvi fazer uma homenagem e reproduzi o mesmo bordado que ela fez, nessa peça”, relembra Luzinete.

» Luzinete Simonassi mostra a almofada produzida pela bordadeira, réplica
do centro de mesa (abaixo) entregue por dona Fitinha há 46 anos
» Casa da dona Fitinha, construção erguida em 1956, hoje virou museu e ponto turístico em Nova Venécia

PROFISSÃO REGULAMENTADA

As integrantes do grupo são regulamentadas. A secretaria da Micro e Pequena Empresa (SMPE), responsável pelo Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), é o órgão que emite a Carteira Nacional do Artesão, destinada aos artesãos e outros trabalhadores manuais. A carteira é gratuita e é emitida após o registro no Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (Sicab). Entre os benefícios do registro no Sicab estão a participação em feiras de artesanato nacionais e internacionais, em oficinas e cursos. Cada estado do país tem uma legislação específica sobre a comercialização dos artesanatos. No Espírito Santo há a isenção de impostos sobre a venda. O registro dá direito à emissão de nota fiscal. A profissão de artesão foi regulamentada em 2015 com a publicação da Lei nº 13.180, que também cria Escola Técnica Federal do Artesanato no Brasil. Cerca de 8,5 milhões de trabalhadores movimentam R$ 50 bilhões por ano no país, segundo a SMPE.
O Sebrae não possui registros sobre quantas bordadeiras existem no Espírito Santo. A Secretaria de Cultura de Nova Venécia também informou não possuir cadastro da profissão no município.

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Custos do grupo para dar vida à arte

Prefeitura e legislativo não contam com Projeto de Lei para fomentar a arte das bordadeiras. Grupo traz potencial de geração de emprego e renda, com um ofício que nasceu junto ao município

» Em meio a maquinários rurais e muito barulho, Marlene das Graças Oakes traz a realidade das bordadeiras, que não possuem espaço para desenvolver a missão de dar seguimento ao trabalho manual

O percal e o linho são os tecidos utilizados nos bordados produzidos pelas artesãs. A linha de meada, o bastidor e a agulha de mão são os alicerces para compor os pontos livres, ali fincados. O valor do metro dos panos gira em torno de R$ 25 e R$ 50. Mas não é no dinheiro que elas pensam na hora de executar esta arte pouco valorizada. Entre si cada mulher do grupo carrega o pacto de resgatar tradições culturais, religiosas e valorizar a natureza da pequena cidade de imigração italiana.
Quando o assunto é valor e tempo de produção, as desvantagens são grandes. Enquanto as bordadeiras levam um minuto para produzir 30 pontos, a máquina de bordado produz 200 deles, no mesmo espaço de tempo. O preço também é outra questão que tem desvalorizado os produtos das artesãs. O pano de prato fabricado de forma artesanal custa R$ 35 e na produção industrial é vendido em média por R$ 16. “Gastamos 40 horas para dar vida a uma almofada, já o maquinário computadorizado faz o mesmo trabalho em 30 minutos. Trabalhamos de graça”, fala Isabel.
Ainda, com todos os indicadores indo contra a tradição manual, existem vantagens no serviço das artesãs. “Uma delas é que conseguimos criar um bordado, que máquina nenhuma produz. Fazer um matizado em uma mesma figura, por exemplo, somente o manual, é muito interessante e diferente”, descreve Luzinete.
O trabalho, para que cada peça fique pronta, não para por ai. Depois do bordado pronto ocorre a bainha com canto mitrado, que é o único momento em que as bordadeiras utilizam a máquina de costura. Para o passo final, chega a vez do produto ser engomado. Mais um item bastante raro.
O afazer, que sem dúvida alguma remete a remotas épocas da colonização italiana, não traz lucro para as profissionais. Este ano elas venderam menos de R$ 1 mil. Para sobreviver, cada uma delas recebe em torno de um salário mínimo mensal. A Marlene tem um ganho ainda menor, cerca de R$ 250. O sustento das bordadeiras vem de fato da lavoura. Viver do bordado ainda é impossível para elas, que já pensam em abandonar a ocupação manual.

RECURSOS

Para se manter, o Dona Fitinha ganhou em 2013 um recurso de R$ 5 mil do Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema), que chegou ao projeto, após uma empresa ter que quitar multa com o órgão. Através do montante foram comprados os tecidos, linhas, tesouras e todo tipo de material utilizado para a fabricação do bordado. A prefeitura ainda custeou itens para o desempenho da função, no valor de R$ 1,8 mil, em 2016.
“Já estamos em falta de muitos itens. Não queremos abandonar algo criado para trabalhar a identidade visual do município e atrair fonte de renda para as mulheres da comunidade”, lamenta Maria Alice.
De acordo com a autora do projeto, o custo mensal para comprar o material de cada artesã é de R$ 300 de matéria-prima, sendo este valor o necessário para fazer o Dona Fitinha deslanchar e atrair olhares. O total resultaria na manufatura de 12 peças por bordadeira. “Alguém que fique responsável para a venda dos produtos no Mercado Municipal, também seria a solução, enquanto ainda precisam viver do sustento do campo”, descreve.
A idealizadora também afirma que a junção com outro projeto dentro do Mercado, proporcionaria a base para o revezamento ao atendimento comercial. “Com estes cálculos, cada uma delas receberia cerca de R$ 500 ao mês. Já seria um começo, para um trabalho praticamente extinto na região”, analisa a descendente do barão.

» Tesouro cultural veneciano nas mãos de quem preserva a história
» Maria Isabel Cescon Simonassi, integrante do Dona Fitinha

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Feiras e treinamentos, com direito a catálogo nacional

Integrantes tiveram apenas os bordados nos eventos, já que precisavam trabalhar no campo, que é o que traz o sustento de cada uma

» Região da APA: bordadeiras em dia de aprendizado com a assistente do Sebrae, Christine Reuter (sentada)

Os produtos das venecianas foram selecionados e participaram do Brasil Original ES, e de duas edições de feiras do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Espírito Santo. As mulheres estiveram apenas em um dos eventos, já que precisavam trabalhar na roça e nas tarefas domésticas. Nova Venécia foi representada apenas com as peças. Resultado: oito itens vendidos somente, somando R$ 640.
A prefeitura cedeu um espaço para as associadas no Mercado Municipal. Porém mais uma vez, a “panha” do café não possibilitou a oportunidade. Elas relatam que só podem largar a vida no campo, quando o ofício com as linhas proporcionar o mínimo de sustento.
Para custear a remessa de um novo material e uma tenda adequada para o grupo participar de feiras, o Dona Fitinha recebeu a notícia de que foi contemplado novamente com uma verba do Iema, recurso que chegará através de projeto elaborado pela fundadora da equipe. “Ainda não foi informado o valor. A novidade chegou na hora certa e anima, mesmo que pouco. A desistência das artesãs representa uma perda cultural para nossa região”, diz.
Como treinamento, o Sebrae capacitou o grupo, tornando real a contagem de horas exercidas no desempenho, adequação de desenhos e costura final. O dona Fitinha também integra o próximo catálogo da entidade privada, através do Brasil Original ES. O lançamento está previsto para o primeiro semestre do próximo ano.

» Mãe Peregrina
» Gameleira
» Pedra do Elefante
» Dona Fitinha bordando

Bordadeiras valorizam a história de Nova Venécia

Os desenhos realizados nos bordados possuem íntima relação com a formação de Nova Venécia. Nos tecidos são reproduzidos pontos turísticos da cidade, como o seu maior cartão postal, a Pedra do Elefante, localizado na Área de Proteção Ambiental (APA). O Santuário da Mãe Peregrina, a forte cultura do café que abastece a economia da região, e a trajetória de vida da dona Fitinha, estão em panos de pratos, de lavabo e almofadas produzidas pelas mulheres. Outra peça que não pode ser esquecida é a réplica do extinto Casarão dos Escravos, local onde morou o Barão de Aymorés e nasceu dona Fitinha. A construção ficou erguida até o final da década de 1990, e nas adjacências, mora a mãe da fundadora do projeto das bordadeiras, em uma propriedade herdada através da neta do barão. A casa começou a ser erguida em 1955, ambiente onde morou a dona Fitinha até sua morte, em 1984. A mulher viveu 86 anos, não teve filhos biológicos, sendo a Ecila (mãe da fundadora do Projeto), a única filha. Hoje a estrutura também é utilizada como ponto turístico na cidade. “Temos peças que contam a vida da dona Fitinha, desde que ela era criança, passando pela adolescência, até a fase adulta, através de 12 quadros”, relata Maria Alice.
A APA é tanto o local de origem da cidade, quanto um dos temas utilizados pelas cinco mulheres. O local e adjacências abrigam a sede da Aspasi e as moradias daquelas que buscam sustentabilidade vinda da agulha e linha. Tudo feito com muito amor em um ritual que para elas é sagrado.

» Fundadora do Projeto, Maria Alice Capucho Gobbi, mostra a foto (acima) da dona Fitinha
» Peça conta cenários da fundação de Nova Venécia
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